quinta-feira, 2 de maio de 2019

PASSAGEM DA NOITE




Passagem da Noite ( Carlos Drumond de Andrade)

É noite. Sinto que é noite
não porque a sombra descesse
(bem me importa a face negra)
mas porque dentro de mim,
no fundo de mim, o grito
se calou, fez-se desânimo.
Sinto que nós somos noite,
que palpitamos no escuro
e em noite nos dissolvemos.
Sinto que é noite no vento,
noite nas águas, na pedra.
E que adianta uma lâmpada?
E que adianta uma voz?
É noite no meu amigo.
É noite no submarino.
É noite na roça grande.
É noite, não é morte, é noite
de sono espesso e sem praia.
Não é dor, nem paz, é noite,
é perfeitamente a noite.

Mas salve, olhar de alegria!
 
E salve, dia que surge!
Os corpos saltam do sono,
o mundo se recompõe.
Que gozo na bicicleta!
Existir: seja como for.
A fraterna entrega do pão.
Amar: mesmo nas canções.
De novo andar: as distâncias
as cores, posse das ruas.
Tudo que à noite perdemos
se nos confia outra vez.
Obrigado, coisas fiéis!
Saber que ainda há florestas,
sinos, palavras; que a terra
prossegue seu giro, e o tempo
não murchou; não nos diluímos.
Chupar o gosto do dia!
Clara manhã, obrigado,
o essencial é viver! 


quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

Número Zero

A ideia totalmente equivocada de que a democracia e o capitalismo radical compactuam não apenas entre si, mas também com a modernidade, o progresso e a reforma, dominou a mente de muitos brasileiros. Aproximadamente 57 milhões de brasileiros entregaram o nosso destino nas mãos de políticos que alardeiam exatamente esses valores enquanto outros, mais tradicionais, são esquecidos ou tidos como insignificantes.
Assim, vemos dia após dia, declarações aterrorizantes ou apenas de total demonstração de desconhecimento de uma realidade simples e que em grande parte define o caráter do povo brasileiro.
Outras declarações demonstram apenas o nonsense e beiram o absurdo. Frases como a que foi dita pelo Onix Lorenzoni que comparou o risco corrido pelas crianças cujos pais ou responsáveis são possuidores de armas de fogo que permanecem guardadas em casa, ao risco de acidente doméstico causado pelo uso inadequado de um liquidificador.
Assim, ao cabo de apenas uma quinzena do novo governo já temos um glossário de palavras e frases usadas totalmente fora do contexto, mas que pela certeza com que eles as pronunciam parecem verdadeiras.
Verdades que fariam corar o próprio Umberto Eco que já previa situação semelhante no seu ultimo livro escrito, Numero Zero. Nesse livro, um grupo de jornalistas e outros profissionais liberais, recrutado de vários lugares e pagos com um ótimo salário tem uma única missão: escrever um jornal que nunca será publicado.
Espero no entanto que a estada desse novo sistema de governo seja bastante documentada para que possamos analisar a propriedade dessa mudança que se prenuncia brusca na economia e nos costumes sociais.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

Matéria divulgada no site do PV e que merece nossa atenção


Posted: 21 Dec 2018 08:30 AM PST
O advogado Ricardo Salles (Novo), futuro ministro do Meio Ambiente no governo Jair Bolsonaro (PSL), foi condenado em primeira instância por improbidade administrativa nessa quarta-feira (19). O juiz Fausto José Martins Seabra, da 3ª Vara da Fazenda Pública de São Paulo, entendeu que Ricardo favoreceu empresas de mineração em 2016, quando era secretário estadual do Meio Ambiente de Geraldo Alckmin (PSDB). Cabe recurso contra a decisão.
Seabra determinou a suspensão dos direitos políticos do futuro ministro por três anos, pagamento de multa e proibição de contratar com o poder público. As irregularidades ocorreram, de acordo com o magistrado, quando o então secretário acolheu mudanças feitas nos mapas de zoneamento do Plano de Manejo da Área de Proteção Ambiental (APA) do Rio Tietê.
Segundo o juiz, a medida não causou prejuízo efetivo ao meio ambiente porque o plano alterado por Ricardo não foi aprovado, também não houve lesão ao erário nem enriquecimento ilícito. A indicação do advogado para o ministério gerou manifestações negativas de ambientalistas, que o consideram muito afinado com o setor produtivo e pouco identificado com as causas ambientais.