segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

ADVOGANDO EM CAUSA PROPRIA


Por Affonso Romano de Sant´anna.


Você sabia que há uns 500 anos havia advogados de insetos, advogados de ratos, advogados de golfinhos e advogados para várias espécies vivas? Só em torno de 1970, no entanto, surgiram os advogados das árvores. E o que aconteceu esta semana em Copenhague está nos fazendo rever a sabedoria dos antigos, que tinham uma relação mais inteligente com a natureza.


Em 1545, na França, apareceu uma praga de besouros. " O caso foi resolvido com a vitória dos insetos, defendidos é verdade pelo advogado escolhido para eles como exigia o processo, pelo próprio juiz episcopal. Este último, usando como argumento o fato de os animais, criados por Deus, possuírem o mesmo direito dos homens de se alimentarem de vegetais, recusara-se a excomungar os besouros". Isto nos vai contando Luc Ferry , ex-ministro da educação da França, no livro de leitura urgente- A NOVA ORDEM ECOLOGICA (Ed. Difel), enquanto diz que outro advogado dos insetos conseguiu que noutra cidade (Saint-Julien) o juiz determinasse que os gorgulhos deveriam ter um espaço de vida só para eles, resolvendo assim uma pendenga com os humanos.


Essa história da defesa da vida se repetiu, no passado, com as sanguessugas do lago Berna (1451), com os golfinhos em Marselha, com os escaravelhos de Coire. Enfim, nossos ancestrais sabiam dialogar com a natureza. Ao contrário, na modernidade, como diz Luc Ferry " a natureza para nós é letra morta". E um dos sábios responsável por esta estultícia é Descartes que dizia que os animais não estão com nada, bom mesmo é o sujeito que se intitula de " homo sapiens" e por isto burramente destrói a natureza.


Vejam como a vida é cheia de surpresas. Aquele ator que no filme era o "Exterminador do futuro"- o Schawazennegger, hoje governando a California, resolveu preservar o futuro.E acabou de dizer algo interessante: "A reunião de Copenhague é um sucesso, mesmo que seja um fracasso". Não é uma simples frase de efeito, é um fato. Estou entre aqueles que acham que soou o momento histórico de uma nova visão sobre o mundo, sobre o outro. A filosofia francesa dos anos 60 vivia falando do "outro", mas sempre relacionada a outro ser humano. Erro.


O outro começa com as bactérias e chega ao urso em extinção na Antártica ou a árvore mais próxima. Por isto, naquele livro, Luc Ferry diz que é : " chegado o tempo dos direitos da natureza, depois das crianças, das mulheres, dos negros, dos índios, até dos prisioneiros, dos loucos ou dos embriões".


Para quem não consegue se relacionar com um "semelhante" quando ele é "diferente" torna-se ainda mais difícil pensar que animal e planta não são simplesmente para serem dizimados. Mas existe pelo mundo graças. ao Green Peace e ao World Wild Fund, um "movimento pela libertação do animal". E a realidade nos fez descobrir que as árvores são seres vivos com direitos a um estatuto de preservação e sobrevivência. Bem que há algum tempo eu fiz um profético poema dizendo que um dia ergueríamos em nossas praças um monumento "ao animal desconhecido"- esses que dizimamos alegremente. Já se pode erguer também um monumento à " árvore desconhecida", como nas guerras ao " soldado desconhecido".


Se eu fosse escrever um texto pesado e filosófico sobre isto diria que Copenhague pode ser o inicio de uma outra epistemologia, uma outra visão da vida, do mundo e do conhecimento. Toda mudança histórica foi um deslocamento, a criação de uma nova episteme. Foi assim com Copérnico, com Newton, com Einstein. E já ficou provado que o modelo de "cultura" e " civilização" que tínhamos, fracassou. Estamos à borda do abismo. Enquanto os mais sensatos exigem que mudemos nosso modo de pensar e agir, outros, mais aferrados ao lucro insistem que não podemos mudar de modelo, porque isto ia provocar desemprego em massa e o caos social.


Eles, no entanto, não percebem que há nisto um irônico e trágico paradoxo: ok, vamos preservar os empregos, continuar destruindo florestas, enchendo o ar e o mar de veneno, e todos poderão continuar indo ao trabalho diariamente, até cairmos -de gravata ou macacão de fábrica, no abismo que nos espera.




(*)-Estado de Minas/ Correio Braziliense- 13.12.2009Clique aqui e veja site do autor

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