domingo, 14 de março de 2010

Lições da prisão (Crônica da cidade) (Artigo)

Data: 14/03/2010
Veículo: CORREIO BRAZILIENSE - DF
Editoria: CIDADES
Assunto principal: ASSUNTOS GDF

Por Conceição Freitas
conceicaofreitas.df@dabr.com.br

Não é difícil aceitar como verídico o relato de que o governador afastado JOSÉ ROBERTO ARRUDA está deprimido e de que nunca imaginava ver essa fúria moral contra ele. O isolamento a que está condenado o governador há mais de um mês traz terrível aprendizado sobre como se dão as relações políticas e profissionais nesse mundo de meu Deus.

A vida tem me ensinado a manter distância regulamentar do poder instituído, qualquer que seja ele. A circunferência em torno dos poderosos costuma ser território onde a hipocrisia brota desavergonhadamente. Ninguém confia em ninguém, ninguém mostra a cara que na verdade tem e neste pântano tudo pode acontecer.

Há alguns meses, quando de uma homenagem ao vice-presidente José Alencar, o presidente Lula disse que, no máximo, o ser humano pode contar com dez amigos, e ele, como tem um dedo a menos, nem pode contar com tantos assim. Nisso, Lula soube ser sábio. Na sua condição de PR, como o presidente da República costuma ser tratado na burocracia interna do Palácio do Planalto, nessa condição é muito fácil se deixar levar por adulações as mais inacreditáveis.

É preciso cuidar de sempre manter a palma dos pés inteiramente grudadas no chão e vigiá-las para que, no gozo dos elogios, paparicações e demonstrações de apreço, o poderoso não se deixe levar pela ilusão de que tem mais amigos do que a média dos demais mortais.

E não apenas os que fazem parte do poder instituído. Os ricos, as celebridades, os bem-sucedidos em geral - todos podem cair na esparrela de que são mais amados que os outros. Tolice. No primeiro fracasso, o adulado vai conferir quem é mesmo amigo. É bem provável que não haja anéis para todos os dedos.

Costuma-se dizer que se conhecem os amigos nas horas difíceis. No caso de Arruda, a hora é inacreditavelmente difícil. O governador caiu no abismo sem paraquedas e, ainda segundo notícias publicadas, não sobrou nem meia dúzia de amigos.

Não conheço o governador (só o cumprimentei uma vez no velório de um arquiteto candango). Salvo por algumas obras que melhoraram o fluxo de veículos, o engenheiro JOSÉ ROBERTO ARRUDA não fez pela cidade o que ela urgentemente necessita e ainda permitiu que ela continuasse a ser loteada pelas grandes construtoras, mas me compadeço pelo que o ser humano JOSÉ ROBERTO ARRUDA está passando.

Como todos os brasilienses que querem que Brasília seja uma cidade de verdade, na qual todos possam dela usufruir, torço para que a Justiça seja feita, com o rigor necessário, que os poderes locais possam recuperar a lisura perdida e que a cidade possa começar de novo. Não será fácil assim, será um longo processo. Esta cidade precisa se desintoxicar do poder e dos delírios de grandeza que costumam acompanhar os poderosos. Sob pena de cair novamente no abismo.

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