terça-feira, 3 de agosto de 2010

A IMPORTÂNCIA DO CAFÉ NO SURGIMENTO DOS SEGUROS

Em uma tarde de 1637, quando Grant contava apenas dezessete anos e Halley ainda não havia nascido, um estudante cretense chamado Canopius sentou-se em seu aposento no Balliol College, em Oxford, e preparou uma xícara de café forte. Acredita-se que essa foi a primeira vez em que se bebeu café na Inglaterra; a bebida,quando oferecida ao público, se tornou tão popular que logo centenas de cafés funcionavam em Londres.
Qual a relação entre o café de Canopius e Grant ou Halley, ou o conceito de risco? Simplesmente, um café foi o berço da Lloyd´s de Londres,durante mais de dois séculos a mais famosa de todas as empresas seguradoras. Na ausência dos meios de comunicação de massa, os cafés emergiram como a fonte principal de notícias e de boatos. Em 1675, Carlos II, desconfiado, como é comum em muitos dirigentes, de locais onde o público trocasse informações, fechou os cafés; porém, o clamor foi de tal ordem que ele teve de retroceder ao cabo de dezesseis dias. Samuel Pepys freqüentava uma café para obter notícias da chegada dos navios em que estava interessado; ele considerava as informações lá recebidas mais confiáveis do que as obtidas em seu emprego na Marinha.
O café fundado por Edward Lloyd em 1687 próximo ao Tâmisa, na Tower Street, era o ponto de encontro favorito dos marujos dos navios atracados nas docas de Londres. O estabelecimento era “espaçoso... bem construído e freqüentado por competentes comerciantes”, segundo uma publicação da época. Tornou-se tão popular que, em 1691, Lloyd transferiu-o para dependências muito maiores e mais luxuosas na Lombard Street. Nat Ward, um taberneiro que Alexander Pope acusou de trocar rimas indecentes por tabaco,relatou que as mesas na nova casa eram “muito asseadas e brilhavam de tanto ser polidas”. Cinco atendentes serviam chá e sorvete, além de café.
Lloyd crescera sob o governo de Oliver Cromwell e sobrevivera à peste, ao incêndio, à invasão holandesa até o Tâmisa, em 1667, e à Revolução Gloriosa de 1688. Ele era muito mais do que um competente proprietário de café. Reconhecendo o valor de sua base de clientes e respondendo à insistente demanda por informações, em 1696 ele lançou a “Lloyd´s List”, recheando-a de informações sobre as chegadas e partidas de navios e as condições no exterior e no mar. Tais informações eram fornecidas por uma rede de correspondentes nos principais portos da Europa continental e Inglaterra. Leilões de navios ocorriam regularmente nas dependências do café, e Lloyd fornecia obsequiosamente o papel e a tinta necessários ao registro das transações.
Um canto estava reservado aos capitães dos navios, onde podiam trocar informações sobre os riscos de todas as novas rotas que se abriam _ rotas que os levavam para mais longe do que nunca a leste, ao sul e a oeste. O estabelecimento de Lloyd ficava aberto 24 horas por dia e estava sempre apinhado.
Então, como agora, quem precisasse de um seguro procurava um corretor, que oferecia o risco aos enfrentadores de riscos individuais que se reuniam nos cafés ou nos recintos da Royal Exchange.
O café de Lloyd´s serviu desde o início de sede para os seguradores marítimos, em parte devido às suas excelentes ligações mercantis e na navegação.
Em 1771, quase cem anos depois de Edward Lloyd abrir seu café na Tower Street, 79 dos seguradores que negociavam no Lloyd´s subscreveram cem libras cada e se uniram na Society of Lloyd´s, um grupo de empresários individuais não constituídos em pessoa jurídica que operavam sob um código de conduta auto-regulamentado.
Esses foram os Membros do Lloyd´s originais; mais tarde, os membros passaram a ser conhecidos como "Names".Os Names empenhavam todos os seus bens terrenos e todo seu capital financeiro para cumprir a promessa de cobrir os prejuízos dos clientes. Esse empenho foi uma das principais razões do rápido crescimento dos negócios fechados na Lloyd´s no correr dos anos.
Desse modo, a xícara de café de Canopius levou ao estabelecimento da mais famosa empresa seguradora da história.
( BERNSTEIN, Peter L. Desafio aos Deuses. A fascinante história do risco. p. 88.)

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