terça-feira, 9 de novembro de 2010

O novo capital da força verde


Liliana Peixinho

Jornalista lilianapeixinho@gmail.com


A TARDE - Pág. 2 - OPINIÃO - 05.10.2010


A mais nova força política do Brasil não está concentrada num partido e, sim, no que Marina Silva chama de núcleos vivos da sociedade. A grande novidade desta eleição foi a manifestação, de Norte a Sul, do desejo por uma nova forma de gestão política, de construção de alianças com a própria sociedade, de forma supra e transpartidária. O Movimento Marina Presidente, grande força de mobilização social de sua campanha, não tem nenhuma ligação política com o PV e foi responsável por movimentos realizados em todo o País para dar visibilidade à campanha de Marina.


Criatividade, compromisso, identidade com a pauta ambiental de forma transversal, leveza, ética, muito trabalho e poucos recursos captados pelo próprio movimento impulsionaram a “onda verde”.


A força jovem que está nesse movimento não aparece na grande mídia e agora se pergunta “para onde vamos?” Com a ética e o cuidado que lhe é peculiar, Marina atendeu a imprensa logo após o anúncio do 2° turno, para reforçar seu compromisso e respeito com essas forças vivas da sociedade, e anunciou o desejo de uma plenária.


Mais do que os rumos que o PV poderá querer dar aos 20 milhões de votos captados na sua representação, será necessário ouvir o que esses núcleos vivos pensam sobre a força política revelada nestas eleições.

O caminho da liberação dos votos, que não têm dono, poderá até ser sinalizado para nenhum dos dois lados, Dilma ou Serra.


Uma aliança com Dilma seria um retrocesso, pois quando ministra Marina saiu do PT exatamente porque não conseguiu conciliar a pauta econômica com a ambiental, como se isso pudesse ser separado.


Apesar de o PV ter alianças com o PSDB espalhadas pelo Brasil afora, Serra nunca foi um caminho para os ambientalistas.


Os integrantes do Movimento Marina Silva não votaram como um projeto político imediato, pois é voto ideológico orgânico, de conteúdo conceitual. Marina, com certeza, ciente disso, não desperdiçará esse capital político ambiental conseguido de forma histórica numa eleição majoritária inédita.


A mobilização pró Marina foi movida pelo compromisso da política limpa, aprofundamento da pauta ambiental transversal, valorização do potencial biodiverso brasileiro, através de educação integral de qualidade, uso de tecnologias avançadas, economia sustentável de ponta a ponta, cadeias produtivas harmoniosas; proteção social integrada e universal, que inclua, mobilize, gere oportunidades de distribuição de renda para mulheres, jovens, mercado informal; segurança com ações preventivas a partir da valorização do núcleo familiar, contra a repressão, a violência, com valorização da vida.


Um modelo político de gestão sustentado não no consumo imediato descartável, predatório e concentrador de renda. Não precisamos ser apenas um mercado atraente, emergente, vinculado ao consumo de celulares, carros, eletrodomésticos, roupas, sapatos, joias, especulação imobiliária.


Temos a oportunidade real de estar em boas escolas, faculdades, cursos técnicos, que abram o campo de trabalho especializado e em larga escala. Um modelo de gestão que reconheça, valorize e potencialize nossa diversidade socioeconômica e cultural, com resgate de tradições das comunidades do interior do Brasil. Uma matriz energética em que o petróleo possa até ser uma via, mas não o principal canalizador de megainvestimentos internos e externos.


Historicamente são “outros países” que valorizam nossas riquezas, antes de nós.

Fontes alternativas, como vento, água e sol, ainda não despertaram investimentos internos em larga escala. Temos solo rico e fértil, não para monoculturas predadoras, mas para uma agricultura que dê o pulo no modelo de segurança alimentar preventivo, potencializando a saúde.


Os eleitores de Marina Silva, cuja base forte vem dos movimentos sociais, estão longe de querer se aliar a antigos ranços políticos partidários. Estão comprometidos com uma política nova, difundida por Marina, que é a da construção coletiva de plataformas de governo. Para onde os ventos vão soprar?

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