sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

TRECHOS DO DISCURSO DA SENADORA MARINA SILVA D0 PV DO ACRE, EM DESPEDIDA DO CONGRESSO.(2)

Quero agradecer a todos os candidatos a governador que marcharam comigo. Fomos o Partido que teve a maior quantidade de candidatos a governador, individualmente falando: Montsserrat, Paulo Salamuni, Fábio Feldmann, Fernando Gabeira, Zé Fernando, Bassuma, Sérgio Xavier, Eduardo Brandão, Marcelo Silva, Teresa Brito. Houve um candidato nosso em Santa Catarina que foi impugnado, mas todos os demais aqui foram candidatos e ajudaram nesse processo.
Na campanha, Senador Cristovam, Senador Eduardo Suplicy, demais colegas, procuramos trabalhar, mais uma vez, as diretrizes e estabelecemos as diretrizes programáticas. As diretrizes programáticas eram as seguintes: estabelecemos que o Brasil deveria ser avaliado a partir de duas coisas: o Brasil que temos e o Brasil que queremos. No Brasil que temos, ser honestos e reconhecer que, nos últimos 16 anos, tivemos avanços econômicos e sociais; que, nós últimos 20 anos, conseguimos reconquistar a democracia; que temos uma sociedade civil rigorosa; e a redução da pobreza. Isso tinha de ser registrado como avanços.
Mas não poderíamos, como disse o economista Eduardo Janete, em nome dos acertos, ter uma atitude complacente com os erros. E aí tratamos dos desequilíbrios, da desigualdade de oportunidade, da estagnação da qualidade de ensino, da dilapidação do patrimônio natural, dos recursos financeiros, dos recursos humanos; enfim, de uma série de problemas que ainda precisam ser enfrentados.
No Brasil que queremos assumimos, como um desafio, que o Brasil deve ser o País da economia de baixo carbono, da educação que gera oportunidade para todos, igualdade de oportunidade para todos, livre das desigualdades sociais, que aposta na inclusão produtiva e um exemplo de prosperidade e sustentabilidade ambiental. Foi com isso que fomos conversar com os eleitores brasileiros.
Nas diretrizes gerais, estabelecemos que deveríamos ter um jeito novo de fazer política.
E assinamos embaixo e registramos no cartório que não iríamos fazer nenhum ataque pessoal, durante a campanha, nem à Dilma, nem ao Serra, nem ao Plínio, nem a ninguém. Eu, às vezes, tinha de esgrimir, porque era difícil. Às vezes, você vai para espaços muito tencionados. Mas, graças a Deus, acredito, não fizemos nenhum tipo de ataque pessoal e tratamos da política cidadã, com base em princípios e valores, em educação para a qualidade de vida, em economia sustentável, em terceira geração de programa social, na qual se faz a transferência de renda direta, com o Bolsa Família, mas se faz também a inclusão produtiva, com educação de qualidade, para gerar igualdade de oportunidade, qualidade de vida para os brasileiros, valorização da diversidade cultural e política externa para o século XXI, também baseada em princípios.
Todas essas diretrizes foram debatidas. E a sociedade brasileira, no meu entendimento, respondeu, de forma fantástica, a esse esforço de fazer um debate, não um embate.
Tive a oportunidade de, aqui, registrar algumas coisas que eu gostaria que ficassem nos Anais, porque não tenho mais tempo.
Em relação à questão política, perguntavam-me: “Como vai ser o embate entre a Dilma e o Serra?”. Eu dizia: “Não quero o embate, vai ser o debate”. Isso fazia com que meu amigo Plínio me chamasse de Pollyanna. Certa vez, eu disse para ele que eu não tinha como ser Pollyanna, porque, na idade de ler Pollyanna, eu ainda era analfabeta, infelizmente. Mas persistimos, persistimos. E me perguntavam: “Como a senhora vai governar se o PV é um Partido pequeno?” Eu dizia: “Nós vamos governar com os melhores do Congresso, do PT, do PSDB, do PMDB, do PDT, dos Partidos de tradição democrática de esquerda, reunindo os melhores e tirando da frente os atravessadores da política”. E, quando cobravam que não tínhamos aliança, eu dizia que tínhamos alianças com os núcleos vivos da sociedade, com os homens, com as mulheres, com os jovens, com os empresários de vanguarda, com a academia, com os diferentes segmentos da sociedade brasileira.
No processo eleitoral, em muitos momentos, vimos uma disputa que, muitas vezes, parecia um vale tudo eleitoral. E aí sempre colocamos a necessidade do segundo turno, que seria melhor para o Brasil, para que os brasileiros pensassem duas vezes, ouvissem duas vezes, e quem fosse eleito sairia duplamente legitimado. E dizíamos que nós, açodadamente, não deveríamos entregar o futuro do Brasil nem para Marina, nem para Plínio, Dilma ou Serra.
Quando tentavam nos constranger, perguntando se estávamos à direita ou à esquerda, onde é que estávamos, dizíamos que estávamos à frente.
Vou deixar todas essas ideias aqui registradas, e dou-as como lidas, Sr. Presidente, para que eu possa adiantar meu tempo.
Mas, com essa atitude, com essa visão, tivemos 19,3 milhões de votos, ou melhor, 19,3% dos votos válidos, ou seja, 19,6 milhões de votos, sendo que, no Distrito Federal – muito obrigada, Distrito Federal! –, foram 42%; no Rio de Janeiro, 31,5%; no Amapá, 29,7%; no Espírito Santo, 26,3%. No Amazonas, sem qualquer estrutura – nem meu Partido me apoiava lá –, ficamos em segundo lugar, com 25,7% dos votos. Victor Hugo disse uma vez: “Nada é mais potente do que uma ideia cujo tempo chegou”. Não foi uma pessoa, não fui eu, não foi Guilherme, não foi o PV que conquistou tudo isso, que é fruto da força da ideia cujo tempo chegou e falou alto para o Brasil, em que pesem as circunstâncias.
Esse foi o desempenho nos Estados, e, aqui, está o desempenho em algumas capitais: Brasília, 42%; Belo Horizonte, 39,9%; Vitória, 38%; Recife, 36%; Manaus, 35%; Rio Branco, 35%; Sabará, 42%. Em alguns outros Municípios, este foi o resultado: Cabo Frio, 40%; Volta Redonda, 40%; Vila Velha, 38%; Niterói, 37%.
É uma ideia cujo tempo chegou! E essa ideia falou alto desse jeito, em que pesem as circunstâncias. “Que circunstâncias, Senadora?” Um minuto e vinte segundos de televisão contra sete minutos de um e dez minutos do outro. Os dois já eram candidatos há muito tempo. Essa não é critica, essas são as regras do jogo. E já estavam historicamente no processo. Eu é que nele entrei depois. O Presidente Lula, com sua força, com um desempenho de 80% na faixa do ótimo e do bom, dizia que a Ministra Dilma era sua candidata. O Governador Serra, desde que perdeu as últimas eleições, era o candidato com a força do Governo de São Paulo, do PSDB e de todo o seu leque de alianças, que, em ambos os lados, era muito amplo.
Nossa opção de não fazer aliança foi programática, porque dissemos que não seríamos pragmáticos. Pagamos um preço para fazer isso.Tínhamos baixa estrutura de recursos, e, como se não bastasse, as pesquisas diziam que eu não estava crescendo, que, pelo contrário, eu estava caindo. Mas eu sabia que estava crescendo. Quando diziam isso, eu dizia: “O que vejo nas ruas é maior do que aparece nas pesquisas”. É claro que não tenho como fazer avaliação técnica dos institutos de pesquisa, mas, talvez, isso sirva de algum ensinamento, porque é a segunda vez que isso acontece comigo. Quando saí para o Senado, me colocaram em quarto lugar, sem chance alguma de ganhar até o final. Ao final, eu estava em primeiro lugar. E, agora, novamente, aconteceu algo que não me dava qualquer chance de competitividade, e sei que não cresci o que cresci em uma semana. Sei que o que estava nas ruas há quatro ou cinco meses já era muito maior do que apontavam as pesquisas. Mesmo assim, foram quase vinte milhões de votos. São votos que servem não para a Senadora Marina ou só para o PV, mas que, no meu entendimento, servem para o Brasil, Senador Cristovam. São votos que servem para o Brasil, para dizer que a agenda da sustentabilidade ambiental é relevante.
Alguns tentaram desqualificar minha votação – foram poucos, bem poucos –, dizendo que eram votos atrasados, conservadores; outros diziam que as pessoas não tinham consciência, que votaram na questão ambiental. Mas posso dizer que os que estão preocupados com a sustentabilidade e com o meio ambiente são muito mais do que os quase vinte milhões, porque, dos que votaram na Dilma, no Serra e no Plínio, boa parte também tem essa preocupação.
Essa votação na agenda da sustentabilidade é muito maior. A diferença é que, no meu caso, mesmo identificada visceralmente com a questão ambiental, não foi suficiente o esforço daqueles que tentavam amedrontar a população brasileira, dizendo que éramos meia dúzia de “ecochatos” e que iríamos travar o País. Isso não foi suficiente. Eles decidiram que a economia que se encontra com a ecologia pode produzir riquezas, pode aumentar a produção por ganho de produtividade, pode gerar energia, pode usar o alto carbono para produzir o baixo carbono. Podemos usar os recursos do pré-sal para poder fazer a economia de baixo carbono. Para isso, é preciso ter visão estratégica. Para isso, é preciso ter essa visão e criar o processo e as novas estruturas para esse mundo em crise, que pode ter na sua crise a grande oportunidade da transformação deste início de século.

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