sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

TRECHOS DO DISCURSO DA SENADORA MARINA SILVA D0 PV DO ACRE, EM DESPEDIDA DO CONGRESSO.(1)

Sr. Presidente, Srªs e Srs. Senadores, primeiro quero agradecer a Deus por estar aqui. Agradeço, de um modo especial, ao Senador Heráclito Fortes e ao Senador Alvaro Dias pela compreensão que tiveram para que eu e o Senador César Borges pudéssemos usar da tribuna para fazer aqui a nossa fala.

...
Vivenciamos momentos difíceis, de divergências, mas devo dizer que a minha saída do PT não está relacionada à minha Bancada. Aqui, mesmo divergindo, foi possível nos tratarmos com respeito, com apoio e, em muitos momentos, a Bancada, em que pesem as dificuldades com o Governo – como no caso da MP da Grilagem –, cerrou fileiras junto comigo, assim como vários Srs. Parlamentares. Tivemos mais de 28 votos e eu devo dizer isso por uma questão de justiça.
Minha saída do Partido dos Trabalhadores, que veio em seguida a essa vinda para o Senado, tem a ver, isto sim, com aquilo que considero ter sido a falta de percepção do Partido dos Trabalhadores para a necessidade de não se deixar aprisionar pelo que já conquistamos, fechando as portas para os novos desafios, que são a única forma de encontrarmos os caminhos do novo.
A questão da sustentabilidade ambiental é a utopia deste século. Nenhum partido... O Partido dos Trabalhadores não foi capaz de perceber isso e, majoritariamente, sempre tratou a questão ambiental em oposição ao desenvolvimento, quando não se trata de confronto entre ecologia e economia, mas de encontro de ecologia e economia, para que possamos sobreviver ao desafio de nossa Era e não destruir o Planeta.
Outra coisa que me fez sair foi o fato de que não se pode ter em mente que as virtudes conquistadas são permanentes, pois não o são. É uma luta cotidiana feita por cada um de nós para, a cada dia, estarmos de pé.
A Palavra de Deus diz o seguinte: “Aquele que está de pé, que pensa que está de pé, cuide para que não caia.” Não é nem que está de pé, que pensa que está de pé, cuide para que não caia. É um esforço.
Às vezes, pelas muitas virtudes que temos, a gente acha que já patrimonializou a ética e que já sacralizou a nossa ação. E aí começa abrir muito o espaço para o pragmatismo, porque o pragmatismo acaba também nos levando para caminhos que, muitas vezes, podem nos deixar, no mínimo, muito incoerentes com aquilo que fazemos, com aquilo que pensamos.
A minha saída se deveu principalmente a essas questões de o PT não ter assumido o desafio da sustentabilidade econômica, social, ambiental, cultural, moral, ética e, principalmente, a sustentabilidade política. Na dimensão da sustentabilidade ética perceber que a maior parte das respostas técnicas para o problema do desenvolvimento sustentável já estão dadas. O que falta é assumirmos o desafio ético de colocarmos toda a nossa técnica a serviço dessa inflexão civilizatória.
Sr. Presidente, quero, aqui e agora, desdobrar já o meu discurso para o fato da minha gratidão, do meu respeito pelo meu partido, pelos meus companheiros do Acre e do Brasil inteiro.
Ontem, fui à cerimônia, a que se referiu o Senador Osmar Dias. Foi a primeira vez que me encontrei com o Presidente Lula depois que saí do PT. Fui convidada como ex-Ministra. Pensei: “Eu vou. Eu fiz parte do Governo. Eu fiz parte do PT. Eu não tenho uma relação de rancor com as pessoas nem de mágoa, graças a Deus, e eu quero me encontrar com as pessoas. Encontrando-me com elas eu estou encontrando também comigo mesma”. Foi muito bom poder abraçar o Presidente Lula. Eu acho que na cerimônia de prestação de contas a gente corre o risco de ser muito apologético e de ver sempre as coisas positivas. É por isso que eu sei que do muito que eu falo aqui – já registrei –, a maior parte não pôde ser feita e não pôde ser feita por dificuldades minhas, dificuldades nossas, mas não posso dizer que tudo foi apenas um mar de rosas. Com certeza devo ter cometido muitos erros também. Mas foi muito bom poder estar ali para dizer que, muitas vezes, para ficarmos juntos a gente tem de sair da casa, morar no mesmo bairro, na mesma vizinhança, como disse no meu discurso, quando saí do Partido dos Trabalhadores. Considero que estamos no mesmo bairro, na mesma vizinhança, sim. Em cima de princípios éticos e valores duradouros, podemos fazer alianças pontuais, que se dissolvem, porque ninguém pensa o tempo todo igual. As pessoas pensam diferente. O que a gente não pode é relativizar os valores. O que a gente não pode é abrir mão dos princípios. Aí não tem como conversar. Mas, em cima desses valores é possível, sim, fazer alianças pontuais, coerentes com os valores.
Eu dizia, na campanha – e já me dirijo a esse processo –, que eu preferia perder do que perder ganhando, aliás, eu preferia perder do que ganhar perdendo. A gente ganha perdendo quando, para ganhar, abre mão dos valores, faz qualquer coisa, vai para o vale-tudo eleitoral. E eu dizia que, de preferência, eu gostaria, se não ganhasse ganhando, de perder ganhando. Acho que de alguma forma, graças a Deus e ao povo brasileiro, perdi ganhando.
Quero agora dizer que não foi fácil a saída do PT para o PV, foi uma decisão difícil, já falei sobre isso daqui desta tribuna. Não foi fácil a decisão de ser candidata à Presidência da República, eu sabia das dificuldades, mas sentia que esse era, sem sombra de dúvida, Sr. Presidente, talvez o chamado o qual se eu não atendesse, com certeza, eu iria me sentir faltosa comigo mesma, com o Brasil e com as bandeiras que acredito e defendo.
Então, a decisão foi de, primeiro, ir para o PV, para essa construção que eles sinalizaram – revisão programática, reestruturação do partido. Em primeiro lugar isso e não a candidatura, para colocar no eixo do partido, da sua atividade programática, a nova forma de fazer política e a sustentabilidade ambiental como eixo estratégico da sua decisão, da sua ação. Depois veio a candidatura.
O esforço para poder levar pessoas que pudessem me ajudar. Tive a felicidade de contar com a colaboração de pessoas como o Guilherme Leal. Fiquei muito feliz com a contribuição, a gratidão que tenho por aquele homem que, há 30 anos, luta na agenda socioambiental do Brasil e, sem precisar de qualquer sacrifício a mais, porque acho que já realizou quase tudo na sua vida, submeteu-se a um processo difícil como esse. Mas ele também atendeu ao chamado. Tive a felicidade de ter bons colaboradores. Quero aqui, partidários e não partidários, agradecer a todos nas pessoas dos meus companheiros que me ajudaram: Bazileu; do Guilherme já falei; Sirkis; Neca Setúbal; João Paulo Capobianco; Pena, que é o Presidente do meu Partido; Maurício Brusadin. Quero cumprimentar todos os diretórios; Ricardo Paes de Barros, que me ajudou no programa de governo; Eduardo Janete; Paulo Sandroni; Gisela Moreau; Eduardo Jorge; Beto Ricardo; o Zeli; o jovem Eduardo Rambal, do Movimento Marina Silva, e tantos outros.

Nenhum comentário: