terça-feira, 25 de janeiro de 2011

HORA DE REPENSAR O MOVIMENTO MARINA SILVA

RESUMO: no texto a seguir Carlos Novaes sugere que o Movimento Marina Silva reflita melhor sobre a existência em seu meio de “voluntários remunerados”, e pede mais transparência sobre os gastos havidos e sobre os custos de manutenção do Movimento, sua(s) fonte(s) de financiamento, seus critérios de remuneração, etc. Novaes propõe, ainda, que se evite adesão por inércia e que este site pergunte a cada uma das pessoas cadastradas se quer continuar no Movimento Marina Presidente agora que a campanha acabou – e com que propósito. Além disso, Novaes aponta problemas de “culto à personalidade” e, diante dessas ponderações, também se indaga sobre a real novidade política desse Movimento. A seguir, o texto completo.
Amigos e demais inscritos no site Marina Presidente (2010),

Fazia tempo que me ocupava como voluntário do projeto Marina Presidente (2010) quando em abril/maio de 2009 me deparei com o site do Movimento Marina Silva Presidente. De pronto fiz meu cadastro, pois imaginei que estava diante de uma iniciativa realmente independente de tudo o que já vínhamos fazendo por aquele projeto.

Mais adiante, exigências de ordem legal acerca de “propaganda antecipada” obrigaram o site a retirar a palavra presidente da sua denominação. Mas para quem se engajava a motivação continuou sendo a eleição de 2010.

Entretanto, observo que o pessoal que manipula a rotina da organização do site pensa em dar a ele ânimo perene, para além do projeto presidencial de 2010, rumo que obriga cada um de nós a fazer uma escolha: ficar ou sair.

Uma liderança política se afirma e confirma a cada dia, nunca por antecipação. Na mesma linha, o liderado faz o movimento correspondente. É de perguntar sobre a pertinência em participar de um movimento político não-eleitoral com o nome de pessoa viva, Marina Silva, em pleno gozo de sua capacidade de julgar e mudar seja de opinião, seja de projeto.

A campanha eleitoral ficou para trás e as idéias e engajamentos que suscitou são agora matéria de debate, avaliação e reavaliação públicos.

1. Adesão por inércia não é recomendável nem para quem a recebe, nem para quem a dá. Sugiro que se faça uma consulta pessoal e direta a cada um dos mais de 45 mil cadastrados neste site para saber se cada uma dessas pessoas quer ou não continuar inscrita nele – e com que objetivo – afinal, esse contingente não forma um ativo de que se possa dispor;

2. Como pesquisador político tive o privilégio de estudar as deformações sofridas pelo PT, tendo localizado e fundamentado naquilo que chamei de “militância remunerada” (v., de minha autoria, “PT: dilemas da burocratização” in Novos Estudos, CEBRAP, março de 1993) a pedra fundamental daquele, hoje manjadíssimo, processo de abandono de princípios na orientação das escolhas políticas do partido: uma vez remunerado, o militante perdeu a independência e o recrutamento passou a se dar pela obediência;

3. Sugiro que este movimento se debruce com um pouco mais de cuidado sobre a surpreendente revelação feita com ligeireza pelo Marcelo Estraviz acerca da figura do “voluntário remunerado” (uma contradição em si), que a mim parece muito mais extravagante e perigosa do que a do “militante remunerado” – mormente quando se pretende manter independência (de que?; de quem?, segundo que base material?, quem recruta/recrutou? Isso foi discutido de maneira ampla no Movimento?);

4. Como julguei não haver vantagem eleitoral ou afetiva para o projeto Marina Presidente (2010) contestar publicamente certas escolhas deste Movimento no curso da campanha e nos dias de júbilo que muitos viveram logo depois do resultado, me limitei, naquela altura, a escrever minhas críticas a alguns amigos do Movimento. Passadas aquelas circunstâncias, vejo vantagens em apresenta-las a todos, ainda mais porque os problemas persistem:

4.1. O Movimento padece de um inatual “culto à personalidade”. Jamais me reconheci na denominação de marinista ou marineiro. Tal como nunca me pareceu razoável alguém se definir como lulista ou luleiro, brizolista ou brizoleiro, janguista ou jangadeiro. De resto, jamais se ouviu falar, a sério, de mandelistas, gandhistas etc. Se algum dia fez sentido denominar-se leninista ou marxista, a denominação se reportava às notáveis contribuições teóricas de pensadores já desaparecidos, cuja envergadura da produção intelectual abrigava (e abriga) disputa interpretativa acirrada. Há novidade política nisso?

4.2. Na mesma linha inatual, me pareceu inadequadamente personalista (por oposição à adesão a um projeto impessoal propriamente dito) a denominação Casa de Marina para os comitês eleitorais da candidata (fossem ou não domiciliares) estimulados pelo Movimento. Pensem como seria alguém propor como novidade política positiva Casa de Lula, ou Casa de FHC...Que novidade propriamente política há nisso?

4.3. O Movimento se fez “presente” na Convenção do PV que ouviu e votou sem debater a decisão de “independência” no segundo turno da eleição presidencial de 2010. Independentemente do mérito da questão, os métodos e suas circunstâncias são fundamentais, notadamente quando se proclama “uma nova forma de fazer política”. Pergunto: os membros do Movimento que lá estiveram foram escolhidos por quem? Se havia, quantos dentre eles eram/foram voluntários remunerados? Tinham todos a mesma posição? O que pensaram e opinam sobre o fato de que o tema votado não foi discutido pelos convencionais?, sendo de notar que sequer houve a consulta sobre a existência de posições diferentes às acertadas previamente entre cardeais da campanha e a então candidata -- o que houve de novo nesse modo de fazer política em que os cardeais impuseram sua posição a todos os outros, interditando até mesmo já não digo o debate, mas a mera apresentação pública do pensamento diferente na tal convenção em que estiveram os membros do Movimento?;

5. Movimentos independentes, autônomos e assemelhados retiram sua viabilidade material da multiplicidade de doadores/financiadores. Ou seja, nenhum ator deve deter relevância isolada, muito menos predominância, no “pagar as contas”. No limite, é isso que garante a independência: se uma fonte seca, há muitas outras. Quem paga as despesas de manutenção deste site Movimento Marina Silva? Quem foram/são os “voluntários remunerados”? Se ainda existem, quantos são os remunerados? Se existe, quanto custa essa folha de remuneração? Quem e como se define os que são/serão remunerados? Ser voluntário remunerado supôs/supõe/suporá dedicação exclusiva à tarefa? Qua6. Espero que a conversa sobre os assuntos e perguntas apresentados acima ilumine o ambiente e coloque o Movimento num grau superior de transparência, mormente para os milhares de nossos parceiros que trabalhamos, voluntariamente, meses a fio.


por Carlos Novaes

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