segunda-feira, 4 de junho de 2012

PRECONCEITO

Ontem à noite presenciei mais uma cena de preconceito no meio de tantas que às vezes somos obrigados a engolir, na vida.

Só que, infelizmente, estas cenas têm se repetido em um lugar em que não deveriam existir, pois uma igreja é ou não é “a casa de Deus, onde nós todos somos irmãos?”

Mais uma vez, o pastor da minha igreja, que não gosta de gatos, demonstrou ser preconceituoso, dessa vez contra idade. Começou a falar sobre um lindo versículo bíblico encontrado em João, tido como o menor versículo da Bíblica. “Jesus chorou”. E pregou sobre Lázaro e a sua ressurreição. Falou que ele era amigo de Jesus, falou sobre Marta e também sobre Maria. Concluiu dizendo que a oração de Maria tinha tocado o coração de Deus e feito Jesus chorar e a partir daí ele teria feito o milagre da ressurreição de Lázaro.

Muito bem encadeadas as palavras até aí. Só que a partir daí ele falou sobre a morte, de como nós temos medo de morrer e arrematou dizendo que uma pessoa que já está com 95 anos não deveria pedir oração para viver, mas aceitar a morte como uma coisa boa, uma vez que estaria certa da sua salvação e da morada eterna com Jesus Cristo.

A pergunta que não quer calar, no entanto é. Por que uma pessoa idosa deveria esperar a morte como libertação? E, a partir de que momento a pessoa sente que não tem mais nada a fazer aqui na terra e pede para morrer? Não estaria ele incomodado com a presença de pessoas idosas e ele sim, definindo o momento em que elas deveriam sair do palco da vida, para não molestar os outros com a sua presença?

Olhar para uma pessoa idosa, logicamente fará o jovem lembrar que ele também chegará a esse estágio, se tiver a ventura de não morrer na flor da idade. E, se ainda não chegamos lá, não seria o caso de tentarmos entender como o velho vê a vida?

Sabemos pela história da vida de Buda, que o seu pai o impedia de ver qualquer coisa desagradável quando saía do palácio, desde pessoas velhas a flores murchas.

Isso tudo para não confrontá-lo com a realidade inexorável que espera a todos nós, mortais e humanos.

Ouvi a mensagem do pastor ontem à noite e ela já não estava mais na minha memória de trabalho, quando, folheando uma revista me deparo com um artigo intitulado Paraíso da Arte, que tem como manchete o seguinte: Em uma antiga cerâmica na periferia de Recife fica o acervo de Francisco Brennand, que se mantém na ativa aos 85 anos. Percorrendo as linhas do artigo encontramos que “O artista faz questão de registrar que ali confeccionou, entre 1961 e 1962, o painel a ‘Batalha dos Guararapes’, um dos seus mais famosos trabalhos, representando símbolos da sua crença nos ícones da nacionalidade brasileira.” E, mais abaixo encontro a seguinte mensagem: “São quase 70 anos de produção intensa, de diferentes técnicas, gêneros e estilos”.

Na ficha bibliográfica que acompanha o artigo está escrito: “ Em 11 de junho, Francisco Brennand completará 85 anos e continua em plena atividade. Inquieto, dedica-se à pintura, acompanha diretamente o dia a dia da Oficina, participa de eventos e trabalha na revisão do seu diário. *

E aí Pastor? Será que uma pessoa com 85 anos ainda pode querer viver ou deve fazer companhia aos seus parceiros de 95 em busca de uma boa morte?


*Paraíso da Arte, in Revista do Brasil, site da web www.redebrasilatual.com.br , maio de 2012.


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